quarta-feira, 26 de abril de 2017

A carta e o índio
    Um fazendeiro incumbiu a um índio, ainda não de todo civilizado que fosse levar dez belas frutas a um amigo. Sobre elas colocou uma carta.
     No caminho o índio teve vontade de comer uma das frutas. E não se conteve: comeu-a!      Ao receber o presente, o amigo do fazendeiro disse ao índio:
    -Você comeu uma das frutas?
   - Eu?
   - Sim. Está faltando uma.
   - Como é que o senhor sabe?
   - Ora, essa! Pela carta.
    O índio não tinha a menor ideia de como a gente pode registrar as ideias pela escrita, e desse modo transmiti-las aos outros.
    Por isso, olhou com admiração a folha de papel que o outro lhe exibia e disse:
    -Ah! Isso conta o que a gente faz?... Eu não sabia!
     Uma semana depois, o índio foi de novo encarregado de levar um cesto de frutas ao mesmo homem. Levava também uma carta.
     No meio do caminho, pousou a cesta no chão e, pegando na carta, disse:
    - Deixe estar, bicho mexeriqueiro, contador do que a gente faz! Agora você não há de ver o que vou fazer para contar aos outros!
      Dito isto, sentou-se sobre o envelope. Comeu três das frutas e atirou longe as cascas e os caroços. Então, levantou-se, pôs a carta no lugar e continuou no caminho.
Mas coitado! Mal chega a casa do amigo do fazendeiro, o mesmo lhe pergunta:
     - Então... estavam boas as frutas?
     - Não sei, não senhor!
     -Como, não sabe?... Pois comeu três delas?
Vendo-se apanhado em falta, o índio muito sem jeito, confessou:
    - Comi, sim senhor. O senhor me desculpe... Mas... eu só queria saber como foi que o senhor descobriu...
    - É boa! Pela carta!
    - Não pode ser, não senhor! Está brincando comigo, porque desta vez eu me sentei em cima dela e ela não viu nada...
     O homem sorriu daquela simplicidade, e o índio pôs-se a pensar no caso. Embora não compreendendo tudo perfeitamente começou a perceber que os sinais escritos deviam servir para transmitir um recado.

VIANA, Francisco – adaptação de Altino Martinez. Leitura Teatralizada. São Paulo: Ed. Clássico Científica, p. 67-


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